Mensagem da Semana



SEMENTEIRA E COLHEITA





     Certo homem, enredado no vício da embriaguez, era freqüentemente visitado por
     generoso amigo espiritual que lhe amparava a existência.
     
     - Arrepende-te e recorre à Bondade Divina! – rogava o benfeitores quando o
     alcoólatra se desprendia parcialmente do campo físico, nas asas do sono. – Vale-te
     do tempo e não adies a própria renovação! Um corpo terrestre é ferramenta
     preciosa com que a alma deve servir na oficina do progresso. Não menosprezes as
     próprias forças!...
     
     O infeliz acordava, impressionado. Rememorava as palavras ouvidas, tentava
     mentalizar a formosura do enviado sublime e, intimamente, formulava o propósito de
     regenerar-se.
     
     Todavia, sobrevindo a noite, sucumbia de novo à tentação.
     
     Embebedando-se, arrojava-se a longo período de inconsciência, tornando ao
     relaxamento e à preguiça.
     
     Borracho, empenhava-se tão-somente em afogar as melhores oportunidades da
     vida em copinho sobre copinho.
     
     Entretanto, logo surgia alguma faixa de consciência naquela cabeça conturbada, o
     mensageiro requisitava-o, solícito, recomendando:
     
     - Atende! Não fujas à responsabilidade. A passagem pela Terra é valioso recurso
     para a ascensão de espírito... O tempo é um crédito de que daremos conta! Apela
     para a compaixão do senhor! Modifica-te! modifica-te!...
     
     O mísero despertava na carne, lembrava a confortadora entrevista e dispunha-se ao
     reajustamento preciso: no entanto, depois de algumas horas, engodado pelos
     próprios desejos, caía novamente na zona escura.
     
     Ébrio, demorava-se meses e meses na volúpia do auto-esquecimento.
     
     Contudo, sempre aparecia um instante de lucidez em que o companheiro vigilante
     interferia.
     
     Novo socorro do Céu, novas promessas de transformação e nova queda
     espetacular.
     
     Anos e anos foram desfiados no milagroso novelo do tempo, quando o infortunado,
     de corpo gasto, se reconheceu enfermo e abatido.
     
     A moléstia instalara-se, desapiedada, na fortaleza orgânica, inclinando-lhe os passo
     para o desfiladeiro da morte.
     
     Incapaz de soerguer-se, o doente orou, modificado.
     
     Queria viver no mundo e, para isso, faria tudo por recuperar-se.
     
     Em breves segundos de afastamento do estragado veículo, encontrou o divino
     mensageiro e, ajoelhando-se, comunicou:
     
     - Anjo abnegado, transformei-me! sou outro homem... Estou arrependido!
     Reconheço meus erros e tudo farei para redimir-me... Recorro à piedade de nosso
     Pai Todo-Compassivo, de vez que pretendo alcançar o futuro na feição do servidor
     desperto para as elevadas obrigações que a vida nos conferiu...
     
     O protetor abraçou-o, comovidamente, e, enxugando-lhe as lágrimas, rejubilou-se,
     exclamando:
     
     - Bem-aventurado sejas! Doravante, estarás liberto da perniciosa influência que até
     agora te obscureceu a visão. Abençoado porvir sorrirá ao teu destino. Rendamos
     graças a Deus!
     
     O doente retomou o corpo, de coração aliviado, com a luz da esperança a clarear-
     lhe a alma.
     
     Mas os padecimentos orgânicos recrudesciam.
     
     A assistência médica, aliada aos melhores recursos de enfermagem, revelava
     insuficiência para subtrair-lhe o mal-estar.
     
     Findos vários dias de angustiosa dor, entregou-se à prece com sentida compunção
     e, amparado pelo benfeitor invisível, achou-se fora da carne, em ligeiro momento de
     alívio.
     
     - Anjo amigo – implorou -, acaso o Todo-Bondoso não se compadece de mim? estou
     renovado!... alterei meus rumos! porque tamanhas provas?
     
     O guardião afagou-o, benevolente, e esclareceu:
     
     - Acalma-te! o sincero reconhecimento de nossas faltas é força de limitação do mal
     em nós e fora de nós, qual medida que circunscreve o raio de um incêndio, para
     extinguí-lo pouco a pouco, mas não opera reviravoltas na Lei. O amor infinito de
     Deus nos descerra fulgurantes caminhos à própria elevação; todavia, a justiça d’Ele
     determina venhamos a receber, invariavelmente, segundo as nossas obras. Vale-te
     do perdão divino que, por resposta do Senhor às tuas rogativas, é agora em tua
     alma anseio de reajuste e com renovador, mas não olvides o dever de destruir os
     espinhos que ajuntaste. O arrependimento não cura as afecções do fígado, assim
     como o remorso edificante do homicida não remedeia a chaga aberta pelo golpe da
     lâmina insensata!... Aproveita a enfermidade que te purifica o sentimento e usa a
     tolerância do Céu como novo compromisso de trabalho em favor de ti mesmo!...
     
     O doente desejou continuar ouvindo a palavra balsamizante do amigo celeste... A
     carne enfermiça, porém, exigiu-lhe a volta.
     
     Contudo, recompondo-se mentalmente no corpo fatigado, embora gemesse sob a
     flagelação regeneradora, chorava e ria, feliz.
     
     
     
     
     
     Pelo Espírito Irmão X - Do livro: Estante da Vida, Médium: Francisco Cândido
     Xavier.